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sexta-feira, 14 de março de 2008

ALGO EM MIM


Será o poema, enfim,
o que vagueia nômade,
sem sombra e sem nome
por dentro e fora de mim,

bem camuflado entre a matéria
— viajante silencioso, esmo,
ligeiro e que até para mim mesmo
esconde a sua identidade secreta?

Será ele o agente que desbrava
minhas vísceras, meu alfabeto
e por meio desta forma alinhava
o meu ser e sina por completo,

tecendo uma longa colcha de retalhos
com meus versos fatalmente fracassados,
para que depois eu morra asfixiado
nesta mortalha sem nunca tê-lo achado?

Será ele, sutil, o que insiste em travar
longas batalhas às bordas da madrugada
entre o papel branco e a provável palavra
que nunca estará, de fato, bem colocada,

pois decerto haverá uma outra agendada
nestas hostes que são sibilinas e fantasmas,
donas de um tempo, das horas enfeitiçadas
quando se cai do cavalo e ele na gargalhada?

Será ele que lacera, que blasfema... O poema
é que leciona em minh’alma e, eterno, me algema?

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Marlos Degani

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Brazil
Marlos Degani, Nova Iguaçu/RJ, é jornalista. Lançou o seu primeiro livro de poemas chamado Sangue da Palavra em 2006 e que conta com a apresentação do poeta Ivan Junqueira, imortal da Academia Brasileira de Letras, falecido em 2014. Em setembro/14 lançou o segundo volume de poemas chamado INTERNADO, também pelo formato e-book, disponível nas melhores livrarias virtuais do planeta. Em 2021, pela Editora Patuá, lançou o seu terceiro volume, chamado UNIPLURAL. Participa como poeta convidado da edição número 104 da Revista Brasileira, editada pela Academia Brasileira de Letras, lançada em janeiro/21, ao lado de grandes nomes da literatura brasileira.