
segunda-feira, 17 de março de 2008
sexta-feira, 14 de março de 2008
DESVIOS
E se meu Deus eu ao menos pudesse
abrir uma fresta entre as faces lisas
e densas da tua alma afiada, feito messe
proibida, que fere em vez de ser ferida,
como se já não houvesse flor a ser resgatada
ou que de teus mistérios ninguém soubesse?
Por que insistir em manter as cortinas cerradas?
Qual será o sonho que conjuras em tuas preces?
E se meu Deus eu ao menos pudesse
receber um único voto teu que contivesse
o mapa desta terra que seria a minha flecha,
no ávido desejo de encontrar a tua brecha,
e por meio dela retirar-me, enfim, do ocaso
de todo o meu decadente espólio colecionado
pelos becos, vielas e semitons da madrugada,
dentro das suas fendas movediças e disfarçadas.
E se meu Deus eu ao menos pudesse
ser ubíquo e flutuar por onde estivestes,
deitar de mansinho em teu colo silvestre
e, repleto, sublimar isto que não amanhece,
que insiste em mim para contrariar a razão
exata da fórmula e do geométrico teorema genial:
fundir o que é dois numa única matéria cabal
misturada pelo magma bombeado do coração.
O amor é a liga ligeira do níquel barato e vagabundo.
Sem ele não há a aliança que tolera todos os versos do mundo.
E se meu Deus eu ao menos pudesse
abrir uma fresta entre as faces lisas
e densas da tua alma afiada, feito messe
proibida, que fere em vez de ser ferida,
como se já não houvesse flor a ser resgatada
ou que de teus mistérios ninguém soubesse?
Por que insistir em manter as cortinas cerradas?
Qual será o sonho que conjuras em tuas preces?
E se meu Deus eu ao menos pudesse
receber um único voto teu que contivesse
o mapa desta terra que seria a minha flecha,
no ávido desejo de encontrar a tua brecha,
e por meio dela retirar-me, enfim, do ocaso
de todo o meu decadente espólio colecionado
pelos becos, vielas e semitons da madrugada,
dentro das suas fendas movediças e disfarçadas.
E se meu Deus eu ao menos pudesse
ser ubíquo e flutuar por onde estivestes,
deitar de mansinho em teu colo silvestre
e, repleto, sublimar isto que não amanhece,
que insiste em mim para contrariar a razão
exata da fórmula e do geométrico teorema genial:
fundir o que é dois numa única matéria cabal
misturada pelo magma bombeado do coração.
O amor é a liga ligeira do níquel barato e vagabundo.
Sem ele não há a aliança que tolera todos os versos do mundo.
ALGO EM MIM
Será o poema, enfim,
o que vagueia nômade,
sem sombra e sem nome
por dentro e fora de mim,
bem camuflado entre a matéria
— viajante silencioso, esmo,
ligeiro e que até para mim mesmo
esconde a sua identidade secreta?
Será ele o agente que desbrava
minhas vísceras, meu alfabeto
e por meio desta forma alinhava
o meu ser e sina por completo,
tecendo uma longa colcha de retalhos
com meus versos fatalmente fracassados,
para que depois eu morra asfixiado
nesta mortalha sem nunca tê-lo achado?
Será ele, sutil, o que insiste em travar
longas batalhas às bordas da madrugada
entre o papel branco e a provável palavra
que nunca estará, de fato, bem colocada,
pois decerto haverá uma outra agendada
nestas hostes que são sibilinas e fantasmas,
donas de um tempo, das horas enfeitiçadas
quando se cai do cavalo e ele na gargalhada?
Será ele que lacera, que blasfema... O poema
é que leciona em minh’alma e, eterno, me algema?
Será o poema, enfim,
o que vagueia nômade,
sem sombra e sem nome
por dentro e fora de mim,
bem camuflado entre a matéria
— viajante silencioso, esmo,
ligeiro e que até para mim mesmo
esconde a sua identidade secreta?
Será ele o agente que desbrava
minhas vísceras, meu alfabeto
e por meio desta forma alinhava
o meu ser e sina por completo,
tecendo uma longa colcha de retalhos
com meus versos fatalmente fracassados,
para que depois eu morra asfixiado
nesta mortalha sem nunca tê-lo achado?
Será ele, sutil, o que insiste em travar
longas batalhas às bordas da madrugada
entre o papel branco e a provável palavra
que nunca estará, de fato, bem colocada,
pois decerto haverá uma outra agendada
nestas hostes que são sibilinas e fantasmas,
donas de um tempo, das horas enfeitiçadas
quando se cai do cavalo e ele na gargalhada?
Será ele que lacera, que blasfema... O poema
é que leciona em minh’alma e, eterno, me algema?
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
COMBUSTÃO
Haverá
na maquiagem
das certezas,
alguém que dirá
dessa saudade impossível.
Haverá
na abordagem
das lembranças,
nosso dois-em-um distante
entre alianças de alvoradas.
Haverá
na miragem
da sua alavanca,
esta vontade inflamada:
a de sermos um e mais nada.
ÁBACO
Todo dia sempre
desisto de alguma coisa:
foice, lâmina, excremento.
Todo dia sempre
nunca termino a noite sem
o grito de um arrependimento.
Todo dia sempre
meço a distância amargurada
entre o que pode ser e o nada.
Todo dia sempre
não sei bem se estou
numa curva ou numa reta:
não sei bem se é o fim
ou se é um poema que começa.
EMBATES
Cada vez que te vejo,
não domino o desejo
de evitar teus olhos acesos
— dardos certeiros no alvo dos meus medos;
algo assim: um coração ao meio,
ora parado ora em tiroteio
ou uma vez a massa e na outra o recheio
(tímido), fruto escondido no arvoredo.
Cada vez que te percebo,
mais claro é o que almejo,
mesmo que a senha do teu segredo
vibre distante do meu lugarejo.
Cada vez que teu corpo se aproxima
confundo o que é sonho com o que pode ser sina.
REFAZENDA
Sobre poema de Eucanaã Ferraz.
1
Um modo de partir:
este pacto,
sangues quentes
rumo ao acto.
2
Um modo de ficar:
esta boca
pura entrelíngüa, tensa,
e preenchida.
3
Um modo de jamais voltar:
o sonho
nave amante dele mesmo,
balé suspenso entre vôos de alvoredos.
4
Um modo de retornar:
a esperança certa
cede ao peso do tudo,
ou à outra cara descoberta.
5
Um modo de, entre
versos, despressurizar
a luta,
o poema.
6
Um modo máximo
de fazer a cama
mais larga:
a outra metade.
7
Um modo de o poeta
dar-se macio: envolvê-lo
(sem as tatuagens do destino)
ao número do estribilho.
8
Um modo de ser,
exato, mas bailarino:
toda a lacuna completa
a Velha Guarda da Portela.
LACUNAS
É sobre buscas e lacunas
que trabalho, que transpiro,
que, sem trégua, denuncio
as asas inexatas e moribundas
do tudo que se encerra como acabado
— talvez o pretenso algoz de todo o poema —
ou a inexistência do desejo alcançado
na meta, horizonte, fim, estratagema:
ele, é reta eterna, o infinito sem medida,
aquilo que, de tão trêmulo, tão inefável, orbita
entre ângulos que a matemática, só, não habita,
não ajuda, não elucida e não quantifica.
Sigo para defender este algo que é mas não é,
o que apenas se aproxima mas não comparece,
a miragem que insinua mas não aparece,
a holografia das sombras, a sudorese.
Meu verso escala os muros,
desmorona na frágil língua do paraíso;
percebe, extenuado, a rebeldia do juízo
e a triste canção dos eunucos.
Meu poema é derrota,
é bolo solado, é rota
perdida sem mapa,
ele é bússola magnetizada.
— É a negação do meu tudo,
mergulhado no meu nada.
DESAFIO PSICOGRAFADO AO POETA
Eu sou o poema, mas, creia, não existo.
Sou apenas uma holografia das sombras,
um artefato herético que passeia, e vil,
desnorteia àqueles que surfam na onda
metafórica e destruidora das vertigens
─ e exibem o falso rascunho do meu mapa
ou de qualquer outro alucinado indício
da minha passagem por alguma estrada.
Feito testemunho de assombrações e mordaças,
de orações, devoção, promessas e feitiços,
ninguém me reconhece ao certo: puro ou mestiço?
Ninguém sabe se sou sonho ou os fantasmas
que rondam escorregadios pelas madrugadas,
e, sob ocultas frestas, assombram a pena e o nanquim;
deturpam a distância da mentira dum tudo maquiado
e o amargo abismo abrupto do nada: mas todo poeta morre assim,
lentamente, tal como fenece a insana dor duma paixão arredia,
baseada na inapetente esperança de que minha porta se abra
voluptuosa e fulgurantemente — como num conto de fadas —
e desperte as vontades ególatras que florescem em frágil poesia.
Sou mesmo a necessária, realista e delirante charada,
esta invisível ameaça que, se materializada, serviria à tirania
dos nobres Doutores e das Suas teses feudais sobre a palavra
(ou às Suas concepções bem articuladas de chapas definitivas,
como se eu fosse uma peça torneada de metalurgia,
produzida em série científica e cabalmente planejada
entre os burocratas, donos das neosenzalas e das papeladas
cheias de regras, censuras, fôrmas, crivos e bruta asfixia).
Sou o que não há, o salto preso nas garras do bueiro:
só bebo um copo. Não posso ser nenhum companheiro.
TEMPO AO TEMPO
“ E então me pergunto, a sós:
por que desdenhar o outrora
se nele é que ecoa a voz
do que, no futuro, aflora? “
Ivan Junqueira in “A Sagração dos Ossos”.
O poeta quer agarrar o todo simples do poema
e o busca na pedra — como a de Sísifo — quando entende
que o seu vinho não passa duma borra demente:
o resto, o bagaço, o que irá para o lixo fatalmente,
seja no ungüento amargo do agora ou na paciente
coleção de agruras, fracassos, tapinhas e armadilhas,
no sarcasmo doentio do verso e da sua forma aparente,
na praia que se insinua continente, mas que não passa duma ilha
solitária, desértica, coisa insignificante fora de qualquer mapa,
pedaço que não vingou, onde o que é vida, se canabaliza.
Ele não estabelece o vórtice, não porque recusa esta lida,
e sim, pois, se encontra mergulhado num imenso nada,
abrupto, quando o que lhe resta é um outro lado do muro,
única vertente possível diante da solidão, do profundo urro.
Não, o louco não escapa nem de si próprio, da teia que teceu
no labirinto do Minotauro: o poeta é valente, mas não é Teseu.
A palavra mora misteriosa no vento vadio de antanho,
numa gruta sombria, atemporal e sem qualquer tamanho.
O poeta, então, assassina a hora jesuíta:
mas o próximo instante, sempre a ressuscita.
Haverá
na maquiagem
das certezas,
alguém que dirá
dessa saudade impossível.
Haverá
na abordagem
das lembranças,
nosso dois-em-um distante
entre alianças de alvoradas.
Haverá
na miragem
da sua alavanca,
esta vontade inflamada:
a de sermos um e mais nada.
ÁBACO
Todo dia sempre
desisto de alguma coisa:
foice, lâmina, excremento.
Todo dia sempre
nunca termino a noite sem
o grito de um arrependimento.
Todo dia sempre
meço a distância amargurada
entre o que pode ser e o nada.
Todo dia sempre
não sei bem se estou
numa curva ou numa reta:
não sei bem se é o fim
ou se é um poema que começa.
EMBATES
Cada vez que te vejo,
não domino o desejo
de evitar teus olhos acesos
— dardos certeiros no alvo dos meus medos;
algo assim: um coração ao meio,
ora parado ora em tiroteio
ou uma vez a massa e na outra o recheio
(tímido), fruto escondido no arvoredo.
Cada vez que te percebo,
mais claro é o que almejo,
mesmo que a senha do teu segredo
vibre distante do meu lugarejo.
Cada vez que teu corpo se aproxima
confundo o que é sonho com o que pode ser sina.
REFAZENDA
Sobre poema de Eucanaã Ferraz.
1
Um modo de partir:
este pacto,
sangues quentes
rumo ao acto.
2
Um modo de ficar:
esta boca
pura entrelíngüa, tensa,
e preenchida.
3
Um modo de jamais voltar:
o sonho
nave amante dele mesmo,
balé suspenso entre vôos de alvoredos.
4
Um modo de retornar:
a esperança certa
cede ao peso do tudo,
ou à outra cara descoberta.
5
Um modo de, entre
versos, despressurizar
a luta,
o poema.
6
Um modo máximo
de fazer a cama
mais larga:
a outra metade.
7
Um modo de o poeta
dar-se macio: envolvê-lo
(sem as tatuagens do destino)
ao número do estribilho.
8
Um modo de ser,
exato, mas bailarino:
toda a lacuna completa
a Velha Guarda da Portela.
LACUNAS
É sobre buscas e lacunas
que trabalho, que transpiro,
que, sem trégua, denuncio
as asas inexatas e moribundas
do tudo que se encerra como acabado
— talvez o pretenso algoz de todo o poema —
ou a inexistência do desejo alcançado
na meta, horizonte, fim, estratagema:
ele, é reta eterna, o infinito sem medida,
aquilo que, de tão trêmulo, tão inefável, orbita
entre ângulos que a matemática, só, não habita,
não ajuda, não elucida e não quantifica.
Sigo para defender este algo que é mas não é,
o que apenas se aproxima mas não comparece,
a miragem que insinua mas não aparece,
a holografia das sombras, a sudorese.
Meu verso escala os muros,
desmorona na frágil língua do paraíso;
percebe, extenuado, a rebeldia do juízo
e a triste canção dos eunucos.
Meu poema é derrota,
é bolo solado, é rota
perdida sem mapa,
ele é bússola magnetizada.
— É a negação do meu tudo,
mergulhado no meu nada.
DESAFIO PSICOGRAFADO AO POETA
Eu sou o poema, mas, creia, não existo.
Sou apenas uma holografia das sombras,
um artefato herético que passeia, e vil,
desnorteia àqueles que surfam na onda
metafórica e destruidora das vertigens
─ e exibem o falso rascunho do meu mapa
ou de qualquer outro alucinado indício
da minha passagem por alguma estrada.
Feito testemunho de assombrações e mordaças,
de orações, devoção, promessas e feitiços,
ninguém me reconhece ao certo: puro ou mestiço?
Ninguém sabe se sou sonho ou os fantasmas
que rondam escorregadios pelas madrugadas,
e, sob ocultas frestas, assombram a pena e o nanquim;
deturpam a distância da mentira dum tudo maquiado
e o amargo abismo abrupto do nada: mas todo poeta morre assim,
lentamente, tal como fenece a insana dor duma paixão arredia,
baseada na inapetente esperança de que minha porta se abra
voluptuosa e fulgurantemente — como num conto de fadas —
e desperte as vontades ególatras que florescem em frágil poesia.
Sou mesmo a necessária, realista e delirante charada,
esta invisível ameaça que, se materializada, serviria à tirania
dos nobres Doutores e das Suas teses feudais sobre a palavra
(ou às Suas concepções bem articuladas de chapas definitivas,
como se eu fosse uma peça torneada de metalurgia,
produzida em série científica e cabalmente planejada
entre os burocratas, donos das neosenzalas e das papeladas
cheias de regras, censuras, fôrmas, crivos e bruta asfixia).
Sou o que não há, o salto preso nas garras do bueiro:
só bebo um copo. Não posso ser nenhum companheiro.
TEMPO AO TEMPO
“ E então me pergunto, a sós:
por que desdenhar o outrora
se nele é que ecoa a voz
do que, no futuro, aflora? “
Ivan Junqueira in “A Sagração dos Ossos”.
O poeta quer agarrar o todo simples do poema
e o busca na pedra — como a de Sísifo — quando entende
que o seu vinho não passa duma borra demente:
o resto, o bagaço, o que irá para o lixo fatalmente,
seja no ungüento amargo do agora ou na paciente
coleção de agruras, fracassos, tapinhas e armadilhas,
no sarcasmo doentio do verso e da sua forma aparente,
na praia que se insinua continente, mas que não passa duma ilha
solitária, desértica, coisa insignificante fora de qualquer mapa,
pedaço que não vingou, onde o que é vida, se canabaliza.
Ele não estabelece o vórtice, não porque recusa esta lida,
e sim, pois, se encontra mergulhado num imenso nada,
abrupto, quando o que lhe resta é um outro lado do muro,
única vertente possível diante da solidão, do profundo urro.
Não, o louco não escapa nem de si próprio, da teia que teceu
no labirinto do Minotauro: o poeta é valente, mas não é Teseu.
A palavra mora misteriosa no vento vadio de antanho,
numa gruta sombria, atemporal e sem qualquer tamanho.
O poeta, então, assassina a hora jesuíta:
mas o próximo instante, sempre a ressuscita.
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Marlos Degani
- MARLOS DEGANI
- Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Brazil
- Marlos Degani, Nova Iguaçu/RJ, é jornalista. Lançou o seu primeiro livro de poemas chamado Sangue da Palavra em 2006 e que conta com a apresentação do poeta Ivan Junqueira, imortal da Academia Brasileira de Letras, falecido em 2014. Em setembro/14 lançou o segundo volume de poemas chamado INTERNADO, também pelo formato e-book, disponível nas melhores livrarias virtuais do planeta. Em 2021, pela Editora Patuá, lançou o seu terceiro volume, chamado UNIPLURAL. Participa como poeta convidado da edição número 104 da Revista Brasileira, editada pela Academia Brasileira de Letras, lançada em janeiro/21, ao lado de grandes nomes da literatura brasileira.