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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ESPELHO?


                 
                  I

Podes até achar vil e soberbo
fazer do meu humílimo soneto
um estandarte, resumo e ápice
de toda esta contrariedade

que a tua estúpida e bífida
língua, que de tão azeda, amarga
à repulsa, além da ojeriza,
a maresia das tuas palavras

− cardume flutuante de falácias
modorrentas que apenas exalam
este olor de ontens repetidos,
este samba mudo, sem surdo, pífio.

Resta a tristeza, o desperdício:
não saber-te teu maior inimigo.

                 II

Foi-se o que havia na garrafa,
mas não me sinto anestesiado
pois este parto que é o poema
jorra sangue e dentro da placenta

nada há; é natimorto o feto
− desorganismo amorfo de versos –
que irrompe quando a alvorada
lança sobre o breu da madrugada

um feixe da fresta que é aberta
− aí é que se fode o poeta
que detesta luz em sua caverna –
e faz cinzas da inútil matéria...

É sobre fracassos o meu trabalho.
E o teu? Caçar o próprio rabo?


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Marlos Degani

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Brazil
Marlos Degani, Nova Iguaçu/RJ, é jornalista. Lançou o seu primeiro livro de poemas chamado Sangue da Palavra em 2006 e que conta com a apresentação do poeta Ivan Junqueira, imortal da Academia Brasileira de Letras, falecido em 2014. Em setembro/14 lançou o segundo volume de poemas chamado INTERNADO, também pelo formato e-book, disponível nas melhores livrarias virtuais do planeta. Em 2021, pela Editora Patuá, lançou o seu terceiro volume, chamado UNIPLURAL. Participa como poeta convidado da edição número 104 da Revista Brasileira, editada pela Academia Brasileira de Letras, lançada em janeiro/21, ao lado de grandes nomes da literatura brasileira.