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terça-feira, 4 de março de 2014

SENTENÇA

                

                                       Eu sou apenas um poeta

                                                              a quem Deus deu voz e verso.

 
                                                               Ivan Junqueira, em Prólogo.

 

 

                 Eu sou apenas um poeta

  que nem a morte quer por perto,

  porque tudo o que me resta

  é o vazio dos meus versos.

  Não conquistei prata ou paz

  na vida quando a palavra,

  em mim, se tornou majestade

  das auroras e dos ocasos,

  dos dias e das madrugadas

  que passo nesta fracassada

  maratona, a que insiste

  no fim do que é infinito,

  na posse do que não existe

  e no eco, um todo oco

  (o baú do ouro de tolo),

  rouco do poço do umbigo.

  É deveras sofisticada

   a armadilha do poema

   (e a sua inexistência     

   cabal, mas também diplomática):

   mesmo que ninguém tenha visto

   o seu rastro, ele precisa,

   pelo escriba, ser buscado,

   porém, e jamais, capturado 

   no colostro do guardanapo

   ou no exato exaspero

   geométrico das rosáceas,

   pois a miragem do presente

   é a dose entorpecente

   dentro da veia egoísta

   do poeta, que num só pico,

   dos fins, se torna dependente.

   E teimo nesta empreitada

   condenada, nestas maquetes

   que ruirão na alvorada,

   para tentar mover as peças

   − e do meu mestre vem a única

   voz que, se caso existisse

   (uma, nem rasa nem profunda),

    o poema me cantaria

    antes numa quase secura

    ríspida que cria atritos

    entre diversas estruturas...

    Aí é que tocam os sinos:

    a poesia é fugaz

    é feito se fosse um éter

    e sou um poeta de nada

    a quem Deus deu voz e verso.

  

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Marlos Degani

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Brazil
Marlos Degani, Nova Iguaçu/RJ, é jornalista. Lançou o seu primeiro livro de poemas chamado Sangue da Palavra em 2006 e que conta com a apresentação do poeta Ivan Junqueira, imortal da Academia Brasileira de Letras, falecido em 2014. Em setembro/14 lançou o segundo volume de poemas chamado INTERNADO, também pelo formato e-book, disponível nas melhores livrarias virtuais do planeta. Em 2021, pela Editora Patuá, lançou o seu terceiro volume, chamado UNIPLURAL. Participa como poeta convidado da edição número 104 da Revista Brasileira, editada pela Academia Brasileira de Letras, lançada em janeiro/21, ao lado de grandes nomes da literatura brasileira.